EFEITO
SOMBRA: COMO ISSO AFETA NOSSA VIDA?
Osmar Ventris[1]
A questão que abordaremos é:
porque o comportamento de certas pessoas nos surpreende durante a
epidemia, colocando em primeiro lugar o chamado Mercado, em detrimento da vida
e da solidariedade?
Ouvindo Leandro Karnal, comentando
se a humanidade sairia melhor ou pior desta crise gerada pela pandemia.
Argumentava Karnal:
{...} as crises revelam as
pessoas, revelam heróis, revelam canalhas. Assim como há holandeses cristãos
que guardam, que escondem, judeus no sótão durante o nazismo como é o caso da família de
Anne Frank, também há holandeses cristãos que denunciam, que há judeus no sótão
e eles são presos e levados para o campo de concentração. Então a crise
desperta heróis e canalhas. [...] a crise não transforma de fato a questão
moral, mas ela revela quem nós somos: nas crises aparecem os heróis e os
canalhas...
Nos fez lembrar a
Inconfidência Mineira.
Mas a questão que coloco para
reflexão é: O que faz pessoas de boa reputação e respeitada na sociedade,
repentinamente nos surpreender apresentando um comportamento contrário ao que
sempre demonstrou, pregou ou combateu?
Vejamos os seguintes exemplos
de comportamentos contrários:[2]
Rush Limbaugh, radialista e
comentarista conservador norte-americano, odiava viciados em drogas, um dia
descobriu-se que ele também era viciado.
O reverendo norte americano
Ted Haggard, perseguia os homossexuais, até um dia ser flagrado em escândalo
com drogas e prostituição masculina.
Eliot Spitzer, ex-governador
de Nova York, trabalhou incansavelmente para limpar as ruas da prostituição, e
acabou sendo flagrado com uma prostituta de luxo.
Fiquemos nestes três exemplos,
com personalidades fora de nosso país, para focarmos, não nas pessoas, mas nos
atos das pessoas, contrariando sua imagem social. Poderíamos também falar sobre
o comportamento de muitas pessoas “de bem” no trânsito, quando se transformam em
seres irracionais.
Carl Jung, psicólogo suíço,
formulou o conceito de SOMBRA, como o
lado ou porção da nossa personalidade, porção esta que, guardada em nosso inconsciente, se manifesta, através de
ações negativas ao que nós repudiamos.
Melhor explicando: Desde a
infância até fase adulta, queremos ser aceitas pela nossa família, amigos e
sociedade em geral. Nosso Ego necessita desse afago. Ocorre que, principalmente na infância,
muitas de nossas ações, falas sobre nossos pensamentos, atitudes e projetos,
são reprimidos, como errado, feio, muitas vezes merecendo punições.
O Ego procura se adaptar
incorporando uma máscara social, (persona), para se apresentar perante a
sociedade de tal forma a ser aceito, admirado e até cultuado. Para agir assim, nosso” lado feio” fica
escondido em nosso inconsciente. Se está em nosso inconsciente, não temos
consciência desse lado. Porém, a nossas
atitudes são influenciadas em cerca de 95% pelo inconsciente e, apenas 5% pelo
nosso lado consciente.
Daí, muitas vezes, sermos
traído pelo nosso inconsciente, praticando ações que nós mesmos repudiamos e
nós e tudo fazemos para que esse nosso lado não seja visto pela sociedade, e assim
as pessoas agem no sentido contrário ao que seu inconsciente sente, até que é
traído pelo mesmo inconsciente.
Isso tem cura? Sim, pode ter
cura.
Qual a dificuldade? A
dificuldade é a pessoa aceitar que tem esse lado sombrio para poder se submeter
ao processo de cura. Normalmente as pessoas se recusam a se ver no espelho e
descobrir, de fato, como ela é. Preferem
a carapuça que possibilita viver confortável perante sua família e perante a
sociedade do que enfrentar o desafio de se descobrir e percorrer o caminho para
superar seus traumas. Na verdade, escondemos nossas qualidades negativas, não
apenas dos outros, mas de nós mesmos, inclusive praticando ações públicas
contrárias às nossas qualidades negativas. E lembrando que isso é feito
inconscientemente.
É como alguém que tem medo de
altura, ou de elevador, ou de estar no meio da multidão. Ela só sabe que tem
medo (fobia), mas não sabe a origem do medo. É o inconsciente agindo. Assim
funciona com nossa sombra: a repudiamos, sem ter consciência de que a temos e
que faz parte da nossa personalidade.
Voltando à questão colocada no
início, porque o comportamento de certas pessoas nos surpreende durante a
epidemia, revelando seu lado mais preocupado com o Mercado, com seus negócios
do que com a vida?
Um dos motivos é a sua sombra
que, durante período de tranquilidade, fica escondida em seu inconsciente,
porém, nos momentos de crise, o inconsciente fala forte, e o seu lado real se
manifesta, como diz Karnal: as crises revelam as pessoas, mas,
acrescentaria eu, revelam para o mundo e para si mesmos.
Através de métodos e
metodologias da Justiça Restaurativa, dos Círculos de Construção de Paz, Psicanálise
ou ainda, da Constelação Sistêmica Familiar, é possível identificar os traumas
e suas origens, para através de uma catarse superar seu lado sombra.
O nosso futuro enquanto seres
humanos e brasileiros, dependerá do quanto nos autoconheceremos durante a pandemia
e ao ambiente político que vivemos, ou seja, de que forma nos revelaremos
diante da pandemia e no período pós pandemia. Qual o lado do “eu” prevalecerá?
[1] Osmar
Ventris: Pesquisador, Facilitador e Palestrante em Justiça Restaurativa;
Círculos de Construção de Paz e Constelação sistêmica Familiar. Conciliador e
Mediador Judicial e extrajudicial; Advogado formado pela USP, MBA em Gestão
Pública, Pós graduado em segurança Pública;
Pós Graduando em Direito Constitucional e Direito administrativo; Pós
graduando em Psicologia Positiva e Coaching
[2]
Extraído do Vídeo O Efeito Sombra - Debbie Ford – Youtube: https://youtu.be/rcfbxbihSsQ .
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